Thumbnail image

O violinista filho da santa

Aqui no meu prédio tem um aprendiz de violinista. O cara — só pode ser homem, para ser tão mau — passa o dia inteiro praticando escalas as mais diversas, e de vez em quando arrisca tocar uma “Asa Branca”. Outro dia até tocou “Shampain”, que para quem não conhece segue abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=-vHi83LTQjU

Eu deveria estar em algum estado alterado de consciência, devido aos incensos que a outra vizinha queima diuturnamente (mas tudo bem, a ela tudo é permitido porque ela é a tia louca dos gatos); caso contrário não teria dado jeito de reconhecer que o que ele estava executando (melhor seria se fosse a tiros) era essa música.

A canção “Shampain” fala da humilhação e da dor de uma garota ao ser abandonada pelo noivo no altar.

Aliás, o termo shampain, que me parece ser um trocadilho entre shame (vergonha) e pain (dor, ou sofrimento) parece muito adequado ao caso em tela, porque é exatamente isso que o cara causa nos vizinhos: vergonha alheia por ele sendo uma pessoa tão refinada, já que aprecia instrumentos musicais clássicos como o violino, não ter a educação mínima para saber que sua atividade está incomodando os outros, e sofrimento que eu não preciso explicar. Aliás, saber ele sabe, tenho certeza. Mas falta-lhe alteridade, falta-lhe colocar-se no lugar dos que compulsoriamente precisam “apreciar” sua arte que mais parece tortura sádica com crueldade.

Isto posto, só tenho duas coisas legítimas a fazer:

  • escrever posts de catarse como este, na esperança de que eu consiga me livrar dos pensamentos que incitam ir lá e fazer o cara vomitar o violino, depois que o instrumentos fizesse todo o caminho contrário no sistema digestório até chegar à boca; e
  • perdoar o cara.

É sério.

O sujeito que desrespeita o semelhante a este ponto, o que é tão grave quanto ouvir música em transporte coletivo sem fone de ouvido, ou peidar no elevador lotado, é um coitado, um infeliz que não tem nem amigos (e se um dia teve namorada/o com certeza é/foi/será corno).

Afinal, ele tem o direito de tocar o violino dele o quanto quiser, fora do horário de silêncio estipulado pelas normas do condomínio. E ele respeita este horário religiosamente: todos os dias, às 19h em ponto, ele para com a encheção de saco, e só a retoma no dia seguinte, às 8h da manhã. Pontualmente. Sempre.

Por fim, eu deveria era agradecer a ele mesmo: enquanto ele estiver sendo o filho da puta do prédio, de Copacabana, do Rio de Janeiro, a vaga fica preenchida e não abre “concorrência”. Sabe-se lá quem poderia vir a ser o seu sucessor, né?

Postagens semelhantes