
Por que eu ainda escrevo
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Há alguns anos eu tinha um problema para resolver no trabalho — um daqueles problemas chatos, específicos o bastante para não ter resposta óbvia, mas comuns o bastante para alguém já ter passado por eles. Fui ao Google, como todo mundo faz, e encontrei um post num fórum com a solução perfeita. Código pronto, explicação clara, contexto suficiente para entender o que estava acontecendo. Copiei, nem precisei adaptar de tão perfeito, e resolvi. Quando voltei à página para agradecer o autor, descobri que o autor era eu mesmo. Eu tinha escrito aquele tutorial meses antes e esquecido completamente.
A história é até meio boba; na hora foi uma situação engraçada, mas o que me interessa nela é outra coisa: ninguém me pediu para escrever aquele post, nem me pagou, quase ninguém leu. Eu escrevi porque tinha acabado de resolver o problema e queria registrar a solução — em parte para ajudar outros, em parte porque colocar as coisas em palavras me ajuda a entendê-las melhor. E anos depois, o beneficiário acabei sendo eu mesmo. Esse ciclo — escrever, publicar, esquecer, reencontrar — é o que me mantém blogando em 2026, quando manter um blog pessoal já parece um gesto de outra época.
Escrever para pensar
Eu blogo porque tenho uma espécie de necessidade de partilhar o que sei, o que penso, o que faço. Não é o que eu chamaria de altruísmo — é mais parecido com o impulso de contar uma história a alguém depois de vivê-la. O ato de escrever me obriga a organizar o que aprendi, a encontrar a sequência lógica entre os passos, a perceber as lacunas no meu próprio entendimento. Muitas vezes começo a escrever um post achando que entendi um assunto e descubro, no meio do terceiro parágrafo, que não entendi tão bem assim. O post me força a voltar, a testar de novo, a confirmar. Quando termino, sei mais do que sabia antes de começar.
Existe também outra coisa, mais difícil de explicar. Eu admiro pessoas que escrevem, gente que mantém blogs técnicos, que publica notas sobre o que está aprendendo, que documenta seus projetos em público sem esperar nada em troca. Fazer parte dessa comunidade dispersa — sem sede, sem estatuto, sem algoritmo que a organize — é algo que eu valorizo. Não é uma comunidade no sentido que as redes sociais dão à palavra. Ninguém curte, ninguém compartilha, ninguém comenta com um emoji de fogo. É uma comunidade no sentido antigo: pessoas que fazem a mesma coisa, cada uma no seu canto, e que de vez em quando se encontram pelo caminho.
Eu não blogo para ganhar dinheiro. Nunca ganhei (mentira minha: já ganhei e ensinei a ganhar), e não pretendo ser “blogueiro profissional.” Não blogo para construir uma audiência, uma marca pessoal ou uma reputação. Blogo porque gosto de escrever, e o blog é o lugar onde essa escrita ganha um endereço e fica disponível para quem precisar — inclusive, como já aconteceu, para mim mesmo.
A internet que encolheu
Quem usa a internet há tempo suficiente lembra de quando ela era outra coisa. Não melhor em tudo — era mais lenta, mais feia, mais difícil de navegar — mas era descentralizada de um jeito que hoje parece improvável. Cada pessoa podia ter o seu canto: uma página no GeoCities, um blog no Blogger, um fórum sobre qualquer assunto imaginável. O conteúdo era amador e muitas vezes tosco, mas era feito por gente real que escrevia porque queria, não porque um algoritmo recompensava o formato certo na hora certa. O tráfego vinha de referências — um blog citava outro, um fórum linkava um tutorial, as pessoas navegavam de link em link como quem caminha por uma cidade sem mapa. Havia algo orgânico nesse ecossistema, mesmo que pouca gente usasse essa palavra na época.
Hoje, em 2026, o cenário é irreconhecível. Estudos recentes estimam que mais da metade de todo o tráfego da internet é gerado por bots. O CEO da Cloudflare previu que o tráfego automatizado vai superar o humano até 2027. O cofundador do Reddit, Alexis Ohanian, disse abertamente que grande parte da internet está morta — tomada por bots, por conteúdo semi-automatizado, pelo que ele chamou de “LinkedIn slop”. A dead internet theory, que há poucos anos era tratada como teoria conspiratória de nicho, hoje é discutida em artigos acadêmicos e na imprensa mainstream, não porque a teoria inteira esteja correta, mas porque a parte observável dela — o deslocamento progressivo do conteúdo humano pelo conteúdo sintético — é cada vez mais difícil de ignorar.
O slop
O termo “slop” se consolidou como a palavra do ano em 2025 segundo o Merriam-Webster, e descreve com precisão o que inunda a internet hoje: conteúdo gerado por IA que existe apenas para existir. Artigos de blog escritos por ninguém, sobre tudo e sobre nada, otimizados para aparecer no Google e atrair cliques que se convertem em receita publicitária. Canais no YouTube com vozes sintéticas lendo posts do Reddit sobre música lo-fi. Perfis no Instagram publicando “arte” que parece saída de uma paleta corporativa derretida. O volume é imenso e a qualidade é uniformemente medíocre — tecnicamente funcional, mas sem nenhuma intenção humana por trás.
O problema não é que a IA produz conteúdo ruim, mas sim que produz conteúdo indiferente em escala industrial. Um blogueiro que escreve um texto ruim pelo menos tentou dizer alguma coisa. Uma fazenda de conteúdo movida a IA não está tentando dizer nada — está tentando ocupar espaço nos resultados de busca. E quanto mais espaço ocupa, mais difícil fica encontrar o texto que alguém de fato escreveu, pensou, revisou e publicou porque tinha algo a dizer.
Os jardins murados
As redes sociais completam o cerco pelo outro lado. Nos primeiros anos, plataformas como o Facebook e o Twitter funcionavam como amplificadores: você publicava algo no seu blog, compartilhava o link, e as pessoas clicavam e iam ler. Esse modelo funcionou por algum tempo, até que as plataformas perceberam que cada clique num link externo tirava o usuário do seu ecossistema — e da sua publicidade. Uma a uma, todas reescreveram seus algoritmos para priorizar conteúdo nativo e enterrar links para fora. O Twitter foi o último a cair, e quando Elon Musk assumiu em 2023, o tráfego de referência praticamente desapareceu para quem dependia dele.
O resultado é um sistema autofágico. O conteúdo que sobrevive é o que nasce e morre dentro da plataforma — curto, rápido, otimizado para o engajamento imediato. Quem escreve textos longos, com links, com referências e com profundidade, perde por definição. Não porque o texto seja pior, mas porque o modelo de negócio das plataformas não comporta a atenção que ele exige.
Fogueiras pequenas
Manter um blog pessoal em 2026 é um gesto anacrônico, mas não é o único: há por aí uma constelação de práticas que, pela lógica dominante, já deviam ter desaparecido — e que não só continuam vivas como estão ganhando gente nova.
Em janeiro de 2026, a Associated Press publicou uma reportagem sobre o renascimento da escrita de cartas. Clubes de pen pals, clubes de máquinas de escrever, comunidades dedicadas a caligrafia e selos de cera — tudo isso em ascensão, enquanto o resto do mundo otimiza cada segundo de comunicação para caber numa mensagem de três palavras e um emoji. Em Dallas, um DJ criou um encontro mensal de “atividades analógicas” — sessões de escuta de vinil, escrita de cartas, colorir — porque, segundo ele, a conexão real acontece quando conseguimos tocar ou ver alguma coisa, não quando deslizamos o dedo por uma tela infinita. O Postcrossing, um projeto que conecta pessoas pelo mundo para trocar cartões-postais, continua ativo e crescendo. O SXSW 2026 dedicou um painel inteiro ao que chamou de “Analog Revival” — como criadores usam autenticidade e escassez para construir comunidades em plena era da IA.
E há mais! As zines — publicações independentes, autoimpressas, distribuídas de mão em mão ou pelo correio — nunca morreram, tendo feiras dedicadas em dezenas de cidades pelo mundo. O radioamadorismo, que existe desde antes da internet e já deveria ter sido tornado irrelevante por ela, mantém comunidades ativas, eventos anuais, e uma cultura própria de experimentação e partilha de conhecimento. Os clubes de leitura, que já existiam antes da imprensa de Gutenberg democratizar o livro, continuam se reunindo em cafés e salas de estar — e em 2026 são, arrisco a dizer, mais populares do que há dez anos.
O que todas essas práticas têm em comum não me parece ser a nostalgia. Ninguém escreve cartas à mão porque acha que o correio é mais eficiente do que o e-mail, nem escuta vinil porque o som é objetivamente melhor do que o streaming. O que essas práticas compartilham é uma convicção — muitas vezes não verbalizada, muitas vezes nem totalmente consciente — de que o processo importa, que a lentidão não é um defeito, é o ponto; que sentar, pensar no que se quer dizer e escolher as palavras com cuidado tem um valor que não se mede em alcance, em curtidas ou em tempo de permanência na página. São fogueiras pequenas, cada uma no seu canto: não iluminam o mundo, mas quem passa por perto as encontra — e se aquece.
O blog como rascunho permanente
Eu mantenho o meu blog numa stack que, para quem não é da área, soa como uma sopa de siglas: Hugo, GitHub, Cloudflare Workers, Pages CMS. Na prática, o que isso significa é que não há intermediário entre o que eu escrevo e o que é publicado, não há plataforma que decida quem vê o meu texto, nem algoritmo que meça o engajamento e ajuste a distribuição de acordo, ou modelo de IA a treinar nos meus posts sem o meu consentimento (tá, talvez isso haja, sim). O texto é meu, o endereço é meu, e o conteúdo fica onde eu o coloquei enquanto eu quiser que ele fique. Isso não é uma declaração política, pelo menos eu não escolhi com esse objetivo. Meu blog é uma escolha prática que, com o tempo, foi ganhando um significado que nem tinha quando eu a fiz.
Jeremy Williams, que mantém um blog sobre sustentabilidade há mais de vinte anos, escreveu no início de 2026 que a sua generosidade ao publicar em aberto foi “abusada” — ele não deu os seus artigos apenas aos leitores, mas também ao Google, ao Facebook e à OpenAI. Richard MacManus, do Cybercultural, comparou navegar pela web independente a garimpar numa loja de discos: é preciso procurar, mas os tesouros que se encontram são genuínos. Jeff Geerling, que mantém mais de trezentos projetos open source, descreveu como a enxurrada de contribuições geradas por IA está degradando a infraestrutura que sustenta a internet real. São vozes diferentes, com perspectivas diferentes, mas todas descrevem a mesma coisa: o espaço para o conteúdo feito por humanos, com intenção e com cuidado, está encolhendo — e quem continua a produzi-lo está cada vez mais consciente de que o faz por razões que não cabem numa métrica.
Eu não sei se blogar em 2026 é um ato de resistência. Provavelmente não, pelo menos não no sentido forte da palavra. Eu uso IA no meu trabalho todos os dias — para automatizar tarefas, para explorar ideias, para acelerar o que seria tedioso fazer à mão. Não estou contra a tecnologia, muito ao contrário! Estou contra a indiferença que ela permite quando usada sem intenção. O slop não é um problema de IA, mas de gente que não tem nada a dizer e agora tem ferramentas para dizer seu nada em escala.
Eu tenho coisas a dizer — nem sempre importantes, nem sempre úteis para mais alguém, mas pensadas, escritas e publicadas por uma pessoa real num endereço real. Se alguém as encontrar, ótimo. Outrossim, o texto fica lá do mesmo jeito — como aquele post que um dia eu encontrei no Google e que, sem saber, eu tinha escrito para mim mesmo.