
Precisávamos mesmo inventar o journalling?
Sempre gostei de escrever. Quando ter um computador pessoal era um sonho distante, eu escrevia em cadernos e cadernetas o tempo inteiro. Anotava tudo o que me interessava, além do que era minha obrigação anotar: lembretes, conteúdos de aulas, notas de reuniões, etc.
Eis que em 2026, depois que passou toda a empolgação pelos blogs, descubro que nas redes sociais parece existir uma atividade chamada journalling, com métodos, materiais, técnicas, influenciadores e toda uma estética associada.
E daí nasceu meu novo hobby: journalling baixa renda.
Ou seja, para criticar gente que se apropria da ideia de escrever num caderno, estou escrevendo minha própria ideia de como escrever num caderno. Mais ou menos isso.
A ideia de registrar coisas num caderno, evidentemente, é muito mais antiga que a palavra journalling. Durante séculos, cadernos serviram para uma mistura de funções que hoje provavelmente tentaríamos separar em aplicativos diferentes. Os chamados commonplace books, por exemplo, reuniam trechos de livros, citações, observações pessoais e qualquer outra informação que o dono considerasse digna de ser guardada. Alguns eram organizados cuidadosamente por assunto; outros, nem tanto.
Também não demoramos a descobrir que acontecimentos importantes e banalidades convivem muito bem no mesmo caderno. Um exemplo famoso é Samuel Pepys, funcionário público inglês que manteve um diário entre 1660 e 1669. Seu relato atravessa acontecimentos históricos importantes da Inglaterra do século XVII, mas também registra trabalho, vida social, música, relações pessoais (inclusive aquelas) e outras coisas do cotidiano. Hoje seu diário é uma fonte histórica valiosa justamente porque preservou não apenas os grandes acontecimentos, mas a experiência de alguém que estava vivendo enquanto eles aconteciam.
E, para não cairmos na tentação de culpar o Instagram por tudo, é bom lembrar que a indústria descobriu muito cedo que dava para vender uma estrutura para essa atividade. Na Inglaterra, os primeiros diários pré-impressos apareceram no século XVIII; uma pesquisa da Universidade de Oxford identifica 1748 como um marco para o surgimento do diário já dividido em espaços e categorias a serem preenchidos. No século XIX, havia uma variedade enorme deles à venda, misturando calendário, informações úteis e espaços para registrar compromissos, transações financeiras, o clima, alimentação e o que mais coubesse.
Portanto, o influenciador que aparece hoje para ensinar o método correto de organizar sua vida num caderno não inventou nem isso. Em algum lugar da Inglaterra vitoriana, provavelmente existiu uma versão dele de cartola.
O Instagram também não inventou o journalling, portanto, apenas acrescentou à atividade algo que mudou bastante sua natureza: uma audiência que favorece uma versão mais sofisticada e visualmente interessante da atividade — é a natureza do Instagram.
Eu mesmo gosto muito de cadernos e cadernetas, e de canetas. Adoro escrever com caneta tinteiro num papel pontado de alta gramatura, mas também gosto de escrever com uma esferográfica ou a lápis num papel qualquer que esteja à mão. A estética do Instagram não é mais journalling do que meu caderninho em que despejo as ideias que não quero que fiquem fervilhando na minha cabeça. Aliás, eu nem usava até hoje a palavra journalling para definir o que eu acho que fica melhor descrito como “escrita livre num caderno xexelento”.
E é aqui que entra o journalling baixa renda. Não como uma defesa de que caderno bom é frescura, caneta cara é desperdício ou que existe alguma superioridade moral em escrever no verso da conta de luz. Se você quiser gastar uma fortuna num caderno japonês e outras tantas horas decorando cada página com adesivos, ótimo. Talvez essa seja justamente a parte da atividade que lhe dá prazer.
O requisito mínimo para escrever continua sendo ridiculamente baixo. Um saco de papel de entrega de lanche e um palito de fósforo queimado servem. Eu só prefiro minha Black Warrior de menos de três dólares (não é uma metáfora), uma caneta tinteiro chinesa que me dá um prazer enorme de escrever. Material melhor pode tornar a escrita mais agradável; só não precisa necessariamente custar caro. Pode, mas não precisa.
Portanto, depois de reclamar que transformaram o simples ato de escrever num caderno em um hobby com nome, métodos, produtos e influenciadores, faço minha contribuição ao problema e inauguro neste blog a categoria Journalling baixa renda. Nela pretendo falar de canetas, tintas, papéis, cadernos e, inevitavelmente, dar meus próprios pitacos sobre como escrever num caderno.
Em algum lugar, o influenciador vitoriano de cartola está orgulhoso de mim.
Fontes e leituras
- Harvard Library — The Fragment and the Whole, sobre commonplace books.
- University of Leicester — Reimagining the Restoration: Samuel Pepys’s Diary and Popular History for the 21st Century.
- Hazel Tubman, University of Oxford — The First Pre-Printed Diaries: Origins, Development and Uses of an Information Genre, 1700–1850.
- University of Oxford — Pre-Printed Diaries and Almanacs: An Aid to Managing the Diseases of Modern Life.